Sonho Americano De Um Jovem Pobre

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Nos fins dos anos 80… ain­da um ado­les­cente, per­am­bu­lan­do pela cidade de São Paulo, Joel sen­tou soz­in­ho na beira­da da estação de trem, e ali por um tem­po,  Joel son­ha­va…

Ele tin­ha von­tade de apren­der falar inglês  e ir morar nos Esta­dos Unidos da Améri­ca. De viv­er out­ra vida, em out­ra cul­tura, com out­ra políti­ca e out­ro sis­tema. Algum lugar onde através de seu esforço próprio, Joel pode­ria subir na vida, ao invés de ficar se sentin­do pre­so a um sis­tema cor­rup­to ofer­e­cen­do pou­cas esper­anças para uma pes­soa pobre.

Ele sabia que no Brasil, o pobre se ape­ga­va a Deus e religião para esper­ança de uma vida mel­hor. Mas cal­cu­lou, “Eu pos­so me ape­gar a Deus, não impor­ta onde eu more. Não pre­cisa ser aqui no Brasil. Deus fala todas as lín­guas…”

Ele sabia que a situ­ação no Brasil não esta­va prop­i­cia para um futuro seguro. Cursin­ho, fac­ul­dade, e depois? Com­pe­tir com todo mun­do? Se a com­petição vai ser forte, por que não com­pe­tir em out­ro lugar? Por que tin­ha que ser no Brasil? O que o Brasil iria faz­er por Joel?

Ele sen­tia que o sis­tema do Brasil não iria mudar por décadas, ate mes­mo depois que ele tivesse mais de 40 anos de idade. Por que? Porque 1% con­trola­va 99% de tudo. Quem iria abrir mão dis­so sem uma rev­olução france­sa? E brasileiro faz rev­olução?  Somente sam­ba, passea­ta, recla­mações e mais nada. Sai um tiro todo mun­do corre!

Estu­dan­do a his­to­ria polit­i­ca do Brasil, Joel apren­deu sobre muitas passeatas nas ruas, muitas con­ver­sas sobre mudança de regime, mui­ta gente se unin­do em can­tos e pro­cis­sões com faixas e ban­deiras,  deman­dan­do que os cor­rup­tos e dita­dores fos­sem expul­sos. Os mil­itares final­mente saíram do poder em 1985.

Joel pen­sa­va que mes­mo assim, nen­hu­ma mudança rad­i­cal iria ocor­rer. Tro­caria o teatro, mas novos atores ence­nar­i­am uma nova cena. Ninguem la em cima iria entre­gar o con­t­role do pais ao povo. Todo mun­do envolvi­do na admin­is­tração da nação sem­pre iria ver o povo como fontes de pro­dução e lucro,  um  pen­san­do ter um poder ilusório do voto, de dire­itos con­sti­tu­cionais e união.

Se por aca­so um  regime cor­rup­to saísse, logo entraria out­ro para mamar nas tetas gigantes de um pais mal admin­istra­do por indi­ví­du­os e cor­po­rações sem índole, sem justiça e sem pudor, lobos dis­farça­dos de ovel­has.

Tan­tas mar­chas. Teve a mar­cha dos Cem Mil, orga­ni­za­da por gru­pos de estu­dantes. Ven­do isso, Joel sabia que esse tipo de coisa ia se repe­tir décadas depois. Mes­ma luta, mes­mo proces­so. Se um regime cedesse a out­ro, só dari­am con­tinuidade a mes­ma cor­rupção, enrolan­do todo mun­do como sem­pre.

Mes­mo dra­ma, atores difer­entes. Ger­ação apos ger­ação, mes­mo esque­ma. Mes­mas passeatas.

Mil­hões de brasileiros lutaram, e muitos mor­reram para acabar com a ditadu­ra mil­i­tar (1964–1985) e hoje, sem alter­na­ti­vas, mil­hões pedem inter­venção mil­i­tar, ou seja, vão repe­tir o mes­mo cir­cu­lo vicioso. Anos depois  vão  para as ruas “de novo” para ten­tar reti­rar os mil­itares porque mis­tu­rar mil­itares com lib­erais nun­ca e’ uma recei­ta boa. Ou seja, la na frente, mais out­ras passeatas, mas out­ra briga con­tra a cor­rupção. Semel­hante aos desafios do Méx­i­co.

Poucos enten­dem o esque­ma, as dire­trizes da Nova Ordem Mundi­al e a índole de quem gov­er­na. Não adi­anta mudar a estru­tu­ra de gov­er­no — expul­sar os de hoje e tro­ca-los por mil­itares —  se tam­bém  não for rad­i­cal­mente muda­da a índole de quem gov­er­na.

Então Joel pen­sou…

Ten­ho que ir emb­o­ra daqui. Não ten­ho nada a perder e tudo a gan­har. Sou jovem. Sou inteligente. Ten­ho saúde. A vida e’ muito cur­ta para pas­sar ela toda sem muitas opor­tu­nidades. Todo dia, eu cor­ro riscos de perder essa vida que Deus me con­cedeu.”

Mas e quan­to a família e ami­gos?

Em seu caso, Joel não tin­ha uma família nor­mal e poucos ami­gos de ver­dade. Pais sep­a­ra­dos des­de que ele tin­ha 5 meses de idade, foi cri­a­do pela tia e pela avo’.

Um ado­les­cente apaixon­a­do sem namora­da, um expres­si­vo sem expressão.

Era uma situ­ação ide­al para se lib­er­ar da opressão políti­ca e econômi­ca da época. Deixar o pouco que tin­ha foi difí­cil mas seria para um futuro mel­hor e bem lá na frente.

Joel pressen­tia que estaria fazen­do algo não só para si mes­mo mas  para sua pos­teri­dade, igual os imi­grantes que saíram de seus país­es para novas vidas em out­ros lugares.

Joel que­ria se tornar um imi­grante igual seus antepas­sa­dos que deixaram tudo para trás  e imi­graram para o Brasil. Joel ago­ra espel­hou seu bisavô, que caiu fora da Itália para ten­tar uma vida mel­hor no Brasil.

A real­i­dade nua e crua e que no Brasil, ninguém ia faz­er nada para aju­dar o Joel. O rico pare­cia ficar mais rico e o pobre cada vez mais fer­ra­do. Ele que­ria mudar de vida por si mes­mo, por con­ta própria. Ele sabia que aque­le que não esta dis­pos­to a sac­ri­ficar pelos seus son­hos, não seria dig­no de viv­er mes­mos.

Mas como?

Joel pen­sa­va e pen­sa­va…

E sen­ta­do nos sofá, dis­co na vit­ro­la ouvia Ger­al­do Van­dré can­tan­do…

Ele ouvia as palavras da canção: “Quem sabe faz na hora, não espera acon­te­cer…”

Joel então decid­iu que ele não iria esper­ar nada acon­te­cer no Brasil.

Brasil, ame-o, ou deixe-o” 

Joel decid­iu faz­er os dois. Por que tin­ha quer ser uma coisa ou out­ra?

Joel ama­va o Brasil mas esta­va dis­pos­to a deixa-lo tam­bém.

Se a coisa era para ser teria que ser por esforço próprio.

Joel tin­ha uma afinidade espe­cial com a lín­gua ingle­sa. Era uma atração quase inex­plicáv­el.

Ele gosta­va da delí­cia dos sons das palavras. Quan­do tin­ha um din­heir­in­ho extra, ele ia soz­in­ho no cin­e­ma só para ver e ouvir os atores amer­i­canos. Fre­quen­ta­va cul­tos em igre­jas que falavam inglês e lia jor­naiz­in­hos e revis­tas em inglês.

A Inter­net não exis­tia. Nada de YouTube ou celu­lares. Out­ra era. Out­ra sociedade e out­ro tem­po.

Seu apego maior era com as atrizes que falavam inglês. Na época, uma de suas atrizes favoritas era a Liv Ull­mann com aque­les olhos azuis pen­e­trantes dela…

Fim da his­to­ria?

Joel con­seguiu mudar para os Esta­dos Unidos, teve muitas exper­iên­cias mar­cantes no pais, domi­nou a lín­gua ingle­sa e perdeu ate mes­mo o sotaque depois de anos con­viven­do com amer­i­canos.

Joel  se legal­i­zou e nem pre­cisou casar com amer­i­cana para obter a residên­cia.

Joel comeu o pão que o dia­bo amas­sou — duas vezes.

Mas super­ou. Nos Esta­dos Unidos, Joel teve que apren­der a se adap­tar, viv­er sem par­entes, tra­bal­har com amer­i­canos, ficar desem­pre­ga­do, subir os degraus do mun­do cor­po­ra­ti­vo e levar tom­bos.

Joel estu­dou. Joel tra­bal­hou por con­ta própria e para os out­ros. Gan­hou bem e gan­hou mal. Fez de tudo um pouco: fax­i­na, lavador de pratos, coz­in­heiro, vende­dor, dono de empre­sa, cor­re­tor de imoveis, entre­gador, comis­sario de bor­do, inter­prete, pro­mo­tor musi­cal, mar­keteiro, ger­ente, aten­dente, sem­pre lem­bran­do do porque ele decid­iu sair do Brasil.

For­mou família e teve fil­hos nasci­dos nos EUA. Sua pos­teri­dade, não impor­ta o que acon­teça.

No decor­rer de sua nova jor­na­da na Amer­i­ca, Joel nun­ca mexeu com dro­gas, teve vícios ou prob­le­mas com a lei. Cuidou de seu cor­po como se fos­se o tem­p­lo de Deus. Se ali­men­tou bem e pas­sou fome. Morou em casas boni­tas e ficou tem­po­rari­a­mente sem teto. Dormiu bem e dormiu no car­ro. Sofreu de depressão e ansiedade, teve boas e mas exper­iên­cias e tudo para apren­diza­gem e cresci­men­to.

O Joel de out­ro­ra pode ser você hoje.

O Joel não rep­re­sen­ta todo brasileiro. O Joel e’ um ou out­ro brasileiro.

O Joel não fugiu a luta. Ele sim­ples­mente escol­heu uma luta difer­ente.

Tudo e’ pos­sív­el aque­le que crê…”

Joel  vive o son­ho amer­i­cano e sua aven­tu­ra na Améri­ca ain­da con­tínua, com todos os desafios que a vida apre­sen­ta. Joel apren­deu que mes­mo moran­do nos EUA, os desafios do dia-a-dia con­tin­u­am e os far­dos nem sem­pre são leves.

Porem, se Joel quis­er retornar ao Brasil hoje, ele pode se quis­er e não porque seria for­ca­do. Joel ain­da ama o Brasil, emb­o­ra ten­ha deix­a­do-o.  Joel não e con­tra brasileiros ou con­tra o Brasil.

Ele sim­ples­mente fez uma escol­ha difer­ente da qual não se arrepende. Ele não faz nada muito difer­ente do que mais de 37,000,000 de pes­soas viventes hoje a mil­hões mais no pas­sa­do que vier­am para a Amer­i­ca.

As vezes, sen­ta­do em um Star­bucks, Joel reflete sobre o Brasil de hoje e nota os mes­mos argu­men­tos, os mes­mos debates do pas­sa­do e que o pais ain­da con­tin­ua repetindo a mes­ma his­to­ria de sem­pre, igual naque­le dia, anos e anos atras, refletindo sobre a vida na estacão de trem.

Cam­in­han­do e can­tan­do e seguin­do a can­cão…”

Sua Opinião?